[A emoção que gosto que essa música traga, se é que ela traz, me evoca certos momentos:]
Eu vejo um dia ensolarado e quente, nas horas de véspera de sair com alguns amigos, um entardecer infernal, quente, costas molhadas, nas línguas secas o desejo auto-afirmativo do macho que diz “porra, vamos tomar uma cerveja”; e então atravessamos os pátios da nossa prisão, cruzamos as ruas, explodindo de alegria pela nossa alforria temporária, de calça jeans e suando, passando por velhas lavando sua calçada e cachorros de borracharias; o Sol em queda rápida, emoldurado pelas nuvens que racha e pela muralha opaca e homogênea de uma imponente cadeia de montanhas posta às sombras, se despede num céu de multitonalidades em rápida mudança, com a luz rasgando o ar em horizontal e refletindo no grande rio que corta o vale, como se um milhar de diamantes estivesse em movimento, imaginamos, mesmo que nunca tenhamos visto um sequer. Nossa trupe medieval dos infernos oferece, andando na ponte sobre o rio – a ponte da esperança e da euforia -, frente a muralha negra que anuncia a escuridão, encarando o céu vermelho e azul e roxo e a luz restante com olhos cerrados, uma cena perfeita, rumando para as desaventuras da Cidade.
E sempre sentia essa imensa alegria aumentar ao andar a esmo pela cidade enfim conquistada, acompanhado de amigos e uma garrafa qualquer, nesse entardecer de dias difíceis: as Horas de Lazer contrastam violentamente com os Dias de Trabalho (pelos quais, ainda assim, agradecemos e rezamos), horas de liberdade, de prazer, de libertinagem que, nesse mundo em que vivemos, são as importantes – solitárias, ilhas no mar da semana, mar de disciplina – não, não é um mar, são mais os corredores infinitos com portas sempre fechadas de um prédio comercial, onde só encontramos escadarias pra saída.
Estou em Resende, cidade mal e bem dita (o pessimismo demonstrado nas mil reclamações que fazemos só serve pra rir – cidade de mentes pequenas e coração grande, tão piegas quanto essa frase, onde cavamos com nossas mãos a diversão possível e impossível), ao lado dos amigos, mas também de conhecidos e/ou quaseamigos e/ou semiamigos e/ou amigos não-habituais, entre eles Alba, grande gaúcho, jeito de italiano, ou um franco-canadense como Kerouac, charmoso com seu humor sutil de risadas bobas, sempre misterioso (desconfiamos confortavelmente dele o tempo todo), com seu meio sorriso totalmente carismático eternizado numa das poucas ou única(s) fotos que tenho dele (numa pose analoga aquelas acrobaticamente tortas do meu grande amigo Zilo quando bêbado), já meio chapado, sorriso de tristeza sobre o passado, de pesar sobre o futuro e de uma força no presente que só nos tornando alcoólatras de final de semana podemos fazer jus em termos de felicidade – o quanto me arrependo de talvez tê-lo magoado ao me insinuar para sua bela mãe – mas de qualquer forma, se é que existem compensações no mundo, ele ficou com minha ex, e fez o que não fiz namorando ela por três meses – sim, três meses, nem eu entendo. Um parceiro perfeito para errar ruas e litros adentro, entre risos e penumbras.
O pôr-do-sol é rápido, já acabou, quando menos percebemos. E quando o Sol se for, se pôr, após beber e bebendo ainda, acompanhamos a Vida e seremos a Noite.